quarta-feira, 26 de junho de 2013

Liberdade, meta palpável ou utopia?

Entre os brados do Junta Brasil que representavam a ânsia por mudanças no país, um foi a expressão da violência: “o povo não é bobo, abaixo à Rede Globo”. Não por demonstrar a insatisfação com a linha editorial da emissora, mas porque, junto aos gritos rimados, vieram o desrespeito e a intimidação aos jornalistas da empresa, os quais não conseguiram concluir suas matérias, dentre eles:
  • Caco Barcellos

  • Zelda Mello

  • O repórter da TV Integração Luciano Teixeira.

A indignação dos manifestantes é contra a alienação gerada pela Rede Globo de televisão, pela cobertura dos protestos que privilegiam o ponto de vista dos policiais e estereotipam os ativistas como baderneiros. A partir disso, descontaram toda a sua raiva nos que a representavam: as equipes de reportagem. Entretanto, os participantes do movimento que, entre tantas causas, lutavam também pela liberdade de expressão agiram na contramão de suas ideias. Ao impedirem que os jornalistas executassem seu trabalho, censuraram-nos e cessaram a liberdade desses de construir uma reportagem da forma que bem entendessem.

Além disso, os manifestantes não se colocaram no lugar dos profissionais, não questionando se, em tal posição, não gostariam de trabalhar em uma grande organização e atingir um cargo que é, no censo comum, sinônimo de êxito profissional. Também estereotiparam os jornalistas como seres inconscientes, que cumprem cegamente o que lhes é ordenado, não analisando a trajetória e o perfil deles. Caco Barcellos, por exemplo, dedicou oito anos de sua vida em pesquisas que resultaram no livro “Rota 66 – a história da polícia que mata”, o qual lhe rendeu ameaças por criticar a ação de policiais nas favelas.


O jornalista do programa Profissão Repórter ainda coleciona dois prêmios Vladimir Herzog, sendo um justificado pela reportagem sobre o atentado militar no Riocentro, durante comemorações do Dia do Trabalhador. Ademais, em 2008, foi consagrado como um dos cinco jornalistas de destaque na defesa dos Direitos Humanos no Brasil, pelo Prêmio Especial das Nações Unidas. Será mesmo que Caco Barcellos iria produzir uma reportagem parcial, ignorando a violência da Polícia Militar e o depoimento dos pacíficos?

Para exigir a mudança no outro é preciso, antes, mudar a si mesmo. Não adianta criticar quem rompe sua liberdade se você faz o mesmo com os outros, se não dá o exemplo. Antes de gritar por aí suas ideologias, pratique-as!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

2º Protesto Junta Brasil em Juiz de Fora

Nessa quinta-feira (20), aconteceu o 2º Protesto Junta Brasil em Juiz de Fora (MG) e, novamente, os juiz-foranos mostraram o que os deixa insatisfeitos.










Mas também houve brincadeiras...


Como já disse no post anterior, o movimento não foi feito apenas de jovens e universitários, quem guarda na memória outros momentos históricos como os de 1964 e de 1992 também esteve presente.

Alice Lelis Carneiro
O movimento de hoje teve, ao meu ver, menos entusiasmo que o primeiro, por vários motivos: os participantes não gritavam frases ou rimas com muita freqüência; a Settra organizou-se e tirou os ônibus de circulação no horário da manifestação e muitas pessoas programaram-se, saíram mais cedo do trabalho, e não foram pegas de surpresa pelos ativistas. Mesmo assim, barulho não faltou. Inúmeros fogos de artifícios foram disparados, além da presença do barulho de apitos e cornetas.


Ao longo do caminho, os manifestantes eram apoiados pelos moradores dos prédios que, em ato simbólico, piscavam as luzes de seus apartamentos. Quando a caminhada chegou ao Parque Halfeld, uma surpresa: uma enorme projeção em um prédio, com frases como “Vem pra Rua”, além de outras que protestavam contra o Estatuto do Nascituro e pedindo Licitação da Astransp com urgência. 
Foto: Lais Bello
De negativo: os manifestantes estavam soltando “bombinhas”. Uma até caiu no pé de uma senhora que nem estava participando do movimento e teve que sair correndo.


No próximo sábado (22), um novo movimento está sendo combinado nas redes : o Dia do Basta contra a PEC 37. São os cidadãos lutando por um Brasil melhor!


terça-feira, 18 de junho de 2013

Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil

Orgulho, esse foi o sentimento ao me deparar com uma multidão que gritava por mudanças implorando ser ouvida pelas autoridades. Os números, informados pela polícia e pelos organizadores do evento, variam entre cinco e dez mil participantes no Junta Brasil, durante a manifestação em Juiz de Fora (MG). O aglomerado seguiu da Praça São Mateus, desde às 16h30 dessa segunda-feira (17), passando pela Av. Itamar Franco, Av. Rio Branco, Av. Getúlio Vargas e findando no encontro da Av. Itamar Franco com a Av. Rio Branco.

O protesto de Juiz de Fora, em apoio ao movimento de São Paulo, teve muitos motivos. “Os vinte centavos foram só a gota d’água. Estamos lutando por nossos direitos, por um transporte de qualidade, contra a PEC 37 e o Estatuto do Nascituro porque nosso estado é laico e não precisamos disso. Viva à democracia! Viva à revolução!”, declarou a estudante Aline Lima. A graduanda em biologia Daniela Alvim justificou sua presença no manifesto relatando que os juiz-foranos foram às ruas devido à violência policial no Rio de Janeiro e em São Paulo, entretanto, estava ali para lutar contra a corrupção e os desvios de verbas nas obras da Copa.
Foto: Guilherme Arêas
A ativista e aluna de Ciências Humanas, Bárbara Viana, também expressou sua opinião: “Desde o impeachment de Collor, o povo estava dormindo acomodado. Mas agora cansamos!”. Entretanto o movimento não foi feito apenas de universitários e jovens. A aposentada Júlia Ribeiro, de 66 anos, participou do Junta Brasil reivindicando melhores condições no transporte público em Juiz de Fora. O advogado Alexandre Rezende saiu do trabalho e uniu-se à massa para dar força à manifestação, declarando que o movimento se devia a uma “insatisfação com todo o aparato do poder estatal em diferentes setores. Tanto econômico, quanto social, da saúde e ambiental”. A gerente administrativa Carolina Rocha, mesmo não participando, apoiou o protesto relatando que, para ela, a motivação era a falta de investimento de dinheiro na educação. Além da gerente, muitas pessoas expressaram seu apoio ao ato, jogando pelas janelas dos prédios papéis picados ou balançando toalhas brancas.

Os participantes ocuparam as quatro pistas da Av. Rio Branco, parando o trânsito, mas abriram espaço para que uma ambulância passasse. O movimento foi pacífico, apartidário, não havendo intervenção da polícia, a qual não quis se manifestar em relação ao ato. O Major Justino e demais companheiros de corporação informaram que apenas o Coronel Mário, responsável pela ação dos policiais militares, poderia dar entrevistas, mas esse não foi encontrado.

Enquanto passavam ao lado dos ônibus, os manifestantes gritavam: “Uh! Sai do busão!”, “ Vem para rua!”. Ao longo da caminhada, outras rimas foram entoadas, como: “Ei! Você aí parado, também é explorado”, “O povo alienado é sempre explorado” e “O povo acordou, o povo decidiu. Ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil!”. É notório que a manifestação de Juiz de Fora, assim como as demais que ocorreram nas capitais e pequenas cidades, têm motivações que transcendem os vinte centavos paulistanos. O povo sufocado brada que não aguenta mais. Lutam pelo direito de manifestar, de não serem roubados com rotineiros desvios de verbas, por leis mais igualitárias, dentre tantas outras razões. É preciso mostrar que os tempos de repressão, de ditadura, ficaram apenas no passado e que não vamos deixar, nem admitir que essa história se repita!


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pai, afasta da imprensa esse cálice

O assunto principal da maioria dos sites de notícia brasileiros, nesta quinta-feira (13), foi a manifestação contra o aumento das tarifas de transporte em São Paulo e a ação das polícias. 

Durante os atos, jornalistas que faziam a cobertura foram presos, dentre eles, profissionais da UOL, Folha de São Paulo, Terra e Carta Capital. Motivo? Porque estavam fazendo o seu trabalho ao retratar a realidade.
Fotógrafo é detido pela polícia durante cobertura da manifestação contra aumento da tarifa de transporte urbano em São Paulo (SP). Foto: Alex Silva/Estadão
Nesse momento de censura, lembro de todo o caminho que a imprensa percorreu para garantir o seu direito de ser livre.
  • Em 1821, D. Pedro, príncipe regente, decreta o fim da censura prévia para toda a matéria escrita, tornando a nossa imprensa livre.
  • O Jornal do Brasil nasce com a República, independente de vínculo partidário, assumindo a posição de jornal livre. Após a morte de D. Pedro II, dois artigos são publicados incitando a volta da monarquia; a redação é atacada por invasores armados e o Ministro da Justiça declara que: “não poderia garantir a vida para os jornalistas que trabalham nos jornais monarquistas”.
  • Durante o Estado Novo, surge o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela censura e controle da imprensa, da literatura, do teatro, do cinema e de quaisquer manifestações culturais. Em 1953, é criada a Lei de Imprensa, que previa multas e prisão caso o jornalista ofendesse a moral pública e os bons costumes.
  • Em 1968, na Ditadura Militar, o AI-5 cerceia a liberdade dos meios de comunicação de massa, impondo censura prévia a todos eles.

Ainda podemos lembrar alguns casos específicos de censura na história:

  • Em 1859 o jornal Publicador paulistano teve sua sede arrombada e todos os seus documentos queimados, assim como em 1890, A Tribuna também foi invadida por publicar artigos contra o Marechal Deodoro da Fonseca e contra o exército.
  • “O Correio da Manhã”, que frequentemente denunciava os abusos da ditadura, foi perseguido: a sua sede foi atacada a bomba, invadida e interditada.
  • Vladimir Herzog, jornalista de 38 anos, que já havia trabalhado em diversas empresas, foi convocado a comparecer no DOI-CODI_ Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna_ para prestar esclarecimentos sobre sua suposta ligação com o Partido Comunista Brasileiro. No dia seguinte, foi encontrado morto com o cinto do uniforme de prisioneiro enforcando seu pescoço e amarrado na janela; os militares alegaram que ele havia se suicidado, porém a foto divulgada mostra o jornalista com os pés no chão, ou seja, como muitos militantes da época diziam: “ele foi suicidado pela ditadura”.
Em tempos de democracia, atitudes como as da Polícia de São Paulo são inconcebíveis. Os jornalistas sempre lutaram pelo direito à informação e à liberdade de expressão, porém as conquistas parecem estar sendo ignoradas. Uma jornalista da Folha de São Paulo, ainda durante a cobertura do ato contra aumento da passagem de transportes públicos,  recebeu um tiro de bala de borracha que atingiu seu olho.
Foto: Diego Zanchetta/Estadão
Até quando os “poderosos” ainda vão pensar que podem controlar o povo, escondendo informações, através do uso da força e da censura?

“Há um gosto que vem de longe na vida brasileira: o gosto de mandar os de baixo calarem a boca. A autoridade pátria se sente mais segura quando tem ao alcance da mão esse instrumento cortante e bem pesado, esse facão material e plúmbeo chamado censura.”
(Eugênio Bucci)


Observação: entre as coberturas das manifestações de São Paulo, podem-se perceber sutis palavras e expressões que marcam a opinião dos veículos quanto ao acontecimento. Compare: Veja, Carta Capital, Época, Estadão, Folha de São Paulo, Blog do Sakamoto.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tolerância: o elo entre religião e esporte

Não é de hoje que religião e esporte têm uma ligação. Na Grécia antiga, antes da criação das Olimpíadas, os gregos já realizavam competições como forma de homenagear deuses, principalmente Zeus. Entretanto, atualmente, a mídia tornou bem mais perceptível essa relação. 

Atletas ajoelham-se para agradecer a vitória; os perdedores crêem que a mão divina assim o fez porque reserva um futuro melhor; antes dos jogos, os vestiários são cenários de rezas coletivas repletas de pedidos para que tudo dê certo, leia-se, para que Deus os favoreça. Essas são apenas algumas das manifestações de religiosidade no esporte, mas eis a pergunta: até quando esse vínculo é saudável e positivo?


A religião pode sim ajudar o esporte a partir do momento em que faz o atleta acreditar que a causa primária de todas as coisas está ao lado deles e, portanto, que eles têm vantagem. Dessa forma, mais confiantes, apresentam um melhor desempenho justificado pela fé. Todavia, existem casos em que os benefícios são questionáveis, por exemplo: um time mulçumano que conta com jogadores evangélicos e católicos, mas obriga os contratados a seguirem as regras da religião, como não comer carne de porco, nem consumir bebida alcoólica. Outro exemplo é o de uma igreja evangélica em Nova Iguaçu (RJ) que oferece aulas gratuitas de Jiu-Jítsu e, como moeda de troca, obriga que os interessados na arte marcial frequentem os cultos.

A justificativa de ambos é levar a disciplina da religião para o esporte, mas tudo que é forçoso, não é feito de bom grado, sendo assim, não tem um resultado positivo. Por trás da boa vontade dos templos religiosos, existe o interesse de prospectar fiéis para aquela convicção, agregando seguidores. Os mulçumanos alegam a criação do time Islam devido ao preconceito existente contra a sua crença, mas exigir que o outro siga a sua fé, também é uma forma de preconceito. 

A religião deve ser escolhida e praticada livremente. Ela é positiva no campo esportivo enquanto forma de incentivo e não como objeto segregador. Com função semelhante, os esportes servem para fomentar a interação social e promover o aprendizado sobre o convívio coletivo, sendo assim, não existe motivo para tanto conflito. Não existe problema na união desses fatores que mexem tanto com o coração humano quando essa relação é harmônica. É preciso que haja respeito à crença alheia, humildade para saber que não existe uma religião certa e outra errada, além de tolerância, atitude essencial para quem vive em sociedade.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O sorriso de Ouro Preto

O bom humor diário prevalece, mesmo após longos 45 anos de profissão. Pedro Custódio tem por ofício enriquecer viajantes com a cultura e a história de Ouro Preto (MG), contando detalhes e curiosidades das igrejas e museus, além de responder aos questionamentos dos turistas, envolvendo, dessa forma, adultos, crianças e idosos.

O senhor de 61 anos destaca-se dos guias mais jovens pela atenção ofertada a cada um que lhe dirige qualquer pergunta e pelo brilho nos olhos ao responder os questionamentos. O amor pela profissão foi herdado do pai, também guia, com quem aprendeu quase tudo o que sabe. Nenhum curso técnico ou universitário o capacitou, apenas um curso de como conduzir pessoas, do qual participou com 12 anos; a convivência com os avós repletos de “causos”; e a vida, inteiramente vivida naquela cidade.


Mas não seria entediante apresentar todos os dias, e às vezes mais de uma vez por dia, os mesmos monumentos e falar sobre os mesmos assuntos? Custódio rebate justificando que o prazer de sua profissão é sempre conhecer pessoas novas, de diferentes lugares e não se apegar a uma rotina específica. Assim, o guia conseguiu sustentar sua casa, como autônomo, fazendo o seu marketing pessoal e sabendo ser tolerante: “O tour de quatro horas é 80 reais, mas se o turista for mais pobrinho, faço por 50 ou 40 mesmo”.


Ao final da conversa, o senhor Pedro me oferece seu cartão, pedindo para que eu o indicasse caso conhecesse alguém que fosse visitar Ouro Preto e complementa dizendo que sempre está na Praça Tiradentes. Se você passar por lá, é fácil reconhecê-lo: basta procurar pela alma mais sorridente e simpática da antiga Vila Rica.