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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Solução pra quem?

A redução da maioridade penal é um tema recorrente em rodas de conversa, mas neste momento não há como ficar em cima do muro. A sociedade divide-se em relação a como punir adolescentes infratores. Tramita na Câmara, uma Proposta de Ementa à Constituição (PEC) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O projeto original é de autoria do ex-deputado federal Benedito Domingos (PP-DF), foi proposto em 1993 e ficou parado por 21 anos. O tema está em discussão em uma comissão especial, composta em sua maioria pela “bancada da bala” - ex-militares e delegados de polícia que defendem o endurecimento de penas e a revogação do Estatuto do Desarmamento; em seguida será votado na Casa e, caso seja aprovado, seguirá para o Senado.

Uma pesquisa realizada pelo Datafolha, no início de abril, revelou que 87% dos brasileiros concorda com a PEC da maioridade penal, contrários à mudança são 11% e os demais são indiferentes. A consulta popular realizou 2.834 entrevistas em 171 municípios, nas quais 47% das pessoas tinham entre 16 e 34 anos de idade. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. Em 2006, o percentual era de 84% de pessoas a favor. 

A advogada Ana Luíza Benatti faz parte da minoria e explica seu ponto de vista. “É uma questão de reorganização político-social. Não é com formas opressivas de punição, que joguem menores em um meio não eficaz à correção que o problema será resolvido.”. Ainda para Ana Luíza, o governo deveria investir em educação, na melhoria da qualidade de vida para obter a redução dos índices de crimes em geral. Já Ana Paula Souza, esposa de um Comandante do Exército, acredita que “se o adolescente com 16 anos, já tem condições de votar, podendo assim definir o futuro de um país, esse mesmo adolescente também pode responder criminalmente pelos seus atos”.

O educador social e ex-diretor do Departamento Geral de Ações da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro (Degase), Sidney Teles, contrapõe esse argumento, questionando por qual motivo o adolescente seria responsável pelos seus atos a partir dos 16 anos e, nessa mesma idade, não teria acesso a outros direitos como casar e dirigir, por exemplo. Além disso, Teles lembra que o voto aos 16 anos é facultativo, enquanto a redução da maioridade penal tornaria obrigatória a punição: “Eles vão transferir um problema da sociedade para o sistema prisional, que já está superlotado. E eles não vão construir novas unidades.”

Ainda segundo Teles, uma unidade socioeducativa não tem a estrutura necessária para transformar o futuro dos jovens lá inseridos. Em geral, a correção é feita pela repressão e não pelo ensinamento. Segundo o ex-diretor, atualmente, os funcionários do Degase usam uniformes, como militares: “Isso não vai trazer nenhum resultado positivo. É o período em que o adolescente deveria ter acesso a tudo que não teve, como cultura e educação, para que, quando adulto, possa fazer as próprias escolhas.”.

De acordo com os últimos dados divulgados pela Secretaria de Direitos Humanos, referentes ao Levantamento Anual da Coordenação-Geral do SINASE (SNPDCA/SDH/PR 2012), o crime mais cometido por jovens infratores é roubo (40,01%), seguido de tráfico (23,46%) e homicídio (8,81%). Ainda de acordo com dados de 2011, disponibilizados pelo Ministério da Justiça, menos de 1% dos crimes é cometido por menores.

É com base nesses números que estudantes do Rio de Janeiro e de Brasília foram às ruas expor sua não concordância com a redução da maioridade penal. As marchas nas capitais uniram jovens que consideram a mudança na legislação um atraso para a sociedade brasileira.

Nos Estados Unidos, a maioridade penal varia nos 50 estados, porque o país permite que cada um deles estabeleça sua própria legislação. Atualmente, apenas Nova York e Carolina do Norte consideram a idade de 16 anos e outros 11 estados adotam 17 anos como idade para um adolescente ser responsável pelos seus atos.

Os critérios para a transferência de um caso da Vara de Infância para uma Corte comum variam, mas têm em geral a mesma vertente: a gravidade do crime praticado, como assassinato, estupro e assalto. Segundo essa base para a decisão da condenação, o Canadá adota maioridade penal entre 12 e 14 anos; enquanto na Austrália, a idade é fixada em 10 anos. Na pesquisa do Datafolha, 75% dos entrevistados apontaram que homicídio seria uma causa para levar à cadeia comum o menor de idade. O segundo crime mencionado foi estupro, com 41%.

O Ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Pepe Vargas, se posicionou contra a redução em uma coletiva de imprensa em maio: “Não há nenhum dado concreto que mostre que a redução da maioridade penal resolve o problema de violência. Por outro lado, sabemos que nos Estados Unidos, onde houve endurecimento da pena o problema não foi resolvido.”

As Nações Unidas no Brasil também declararam a não concordância com a mudança na maioridade penal. Através de nota, afirmaram a preocupação em as infrações cometidas por adolescentes e jovens serem tratadas exclusivamente como uma questão de segurança pública. Para a ONU, esses crimes são um indicador de restrição de acesso a direitos fundamentais, a cidadania e a justiça, e, se a PEC 171/1993 for aprovada, o país poderá ter “graves consequências no presente e futuro”.

Os argumentos contra e a favor do tema são muitos para decidir o futuro dos quase 20 mil adolescentes que cumprem pena em regime fechado no Brasil.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Você lava suas mãos?

A sociedade brasileira não acredita mais na Justiça do país, pois enxerga que essa tem pesos diferentes para ricos e pobres, além de não demonstrar credibilidade, já que a maioria dos criminosos é solta sem ter cumprido, ao menos, metade do tempo de pena previsto. Por essa descrença, muitos cidadãos acham certo fazer justiça com as próprias mãos. As provas são acontecimentos recentes, como o linchamento de uma mulher até a morte, acusada falsamente de praticar rituais de magia negra com crianças, e o espancamento de um jovem que havia praticado furto no Rio de Janeiro, o qual terminou preso a um poste nu, com uma trave de bicicleta. Mas será essa mesma a solução para os nossos problemas cotidianos?

Menor preso a um poste no Flamengo (RJ), por justiceiros, após cometer um furto. Imagem da internet.

Uma pesquisa aponta que 17% dos cariocas acreditam que arregaçar as mangas e fazer o trabalho da polícia é a forma mais eficiente de corrigir os problemas de nossa sociedade. Entretanto, ao punir quem comete alguma infração, sem o respaldo da lei, o justiceiro também se transforma em um criminoso. Ademais, se cada um decidir resolver as coisas a seu próprio modo, voltaremos à idade da pedra, aceitando a máxima "olho por olho e dente por dente", inseridos em um caos total.

Talvez a imprensa sensacionalista, a qual dá prioridade apenas para notícias repletas de sangue, tenha um pouco de culpa no comportamento dessa parcela da sociedade. Mas não queremos achar os culpados, o importante é avaliar a conduta em si. Todo problema social tem origem na falta de políticas públicas, portanto investimentos em educação solucionariam tanto o comportamento de justiceiros, quanto a formação de futuros infratores. Além disso, não podemos deixar de lembrar que ao punir com as próprias mãos, estaremos ignorando completamente os direitos humanos, já que todo cidadão deve ser respeitado.

Dessa forma, tentar suprir as falhas de segurança pública com atitudes individuais, ou mesmo coletivas, só aumenta a histeria da sociedade e os problemas já existentes. É preciso que o governo invista em políticas públicas como educação e melhore o funcionamento do setor judiciário, para que as leis já existentes tenham alguma eficácia e reflexo em nosso dia-a-dia.