É engraçado pensar como coisas tão pequenas, às vezes, têm significados tão fortes para nós. A casa da minha vó, por exemplo. Fica em uma cidade onde não há praticamente nada para fazer, mas é um dos meus lugares favoritos.
Na minha infância, tinha cheiro de saudade. Os finais de semana em que lá passava eram repletos de diversão: encontro com as primas, som do pipoqueiro que vinha na porta da casa e mimos de vó. Hoje, depois de ter me mudado para 'perto' da minha vózinha, a tal casa me desperta sensação de refúgio.
Lá, tenho boas memórias enquanto esqueço as preocupações da vida adulta. Mas, o mais importante: encontro a minha pequena. Aquela que antigamente protegia das broncas maternas, hoje já é frágil e me surpreende com peripécias comparáveis àquelas de uma criança.
Ao me contar histórias da sua vida, de como driblou sua dor e todos os obstáculos, me mostra que determinação é a chave para qualquer conquista. E, quando sou eu a narradora, se diverte com as minhas aventuras, mesmo que fique preocupada, apoiando tudo. Coisas de vó!
Dona Florinda é quem tinha razão sobre o que é tesouro. Alegria é o sentimento que toma conta de mim ao perceber a troca de amor que existe entre eu e essa moça de altura semelhante, separadas apenas por uma geração. Cada risada gostosa por qualquer piada tola ou episódio de novela, me faz aprender que a felicidade está na simplicidade porque relevante mesmo são as pessoas com as quais nos relacionamos. Afinal, quem encontra abismos, mas tem com quem contar, não se desespera. Constrói pontes.
terça-feira, 23 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
Voa, sem medo
Aceite o fim dos ciclos. Todo sofrimento que nós passamos na vida é gerado pela inconformidade. Pensamos: “se fosse assim, se acontecesse da forma como eu imaginei”, mas nós não temos o poder de controlar todos os capítulos de nossas vidas. Podemos, sim, escolher caminhos, já que temos um livre-arbítrio. Entretanto, a consequência dessas escolhas não nos é facultativa. Além disso, lidamos com a interferência de escolhas alheias, que podem desviar nossa rota do que foi previamente planejado.
Todo fim de etapa assusta e qualquer despedida gera um aperto no peito. É a saudade de todos aqueles momentos bons vividos, que não queremos deixar para trás. Entretanto, não temos a consciência de que nós não apagamos aquelas vivências, como se elas nunca tivessem acontecido. Isso é impossível, elas passam a ser parte de nós. Seja como boas memórias ou como experiências. A partir de então, seguimos em frente mais calejados e com mais bagagem para lidar com novos desafios. Afinal, um pequeno tombo pode gerar muita dor e choro para uma criança, mas para um adulto... não passa de uma intercorrência sem importância.
O novo gera receio, medo. É como entrar em uma caverna escura para desvendar seus mistérios. Você tem duas escolhas: permanecer do lado de fora e ter, para sempre, a dúvida do que existe lá dentro, ou ter coragem, se arriscar a passar por trilhas irregulares e descobrir algo surpreendente, que poucas pessoas tiveram a oportunidade de conhecer.
Para alçar altos voos é preciso não olhar pra baixo. Ter coragem não é ser forte e passar por qualquer situação sem tremer na base. Ter coragem é superar seus receios e ir em frente. Afinal, há 50% de chance de acontecer algo maravilho. Sobre os outros 50%? Ah! Eles não importam.
Letycia Cardoso
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Chora, a nossa Pátria mãe gentil
São tempos difíceis para os sonhadores... e para os realistas também. O Brasil enfrenta um período de crise e, meu amigo, sinto muito em ser sincera, mas a tendência é piorar.
A energia teve alta de 13,02% em abril. Quem paga a conta, se assustou com as bandeirinhas amarela e vermelha. A alimentação também pesou e as idas com frequência ao supermercado ficaram de lado. A solução foi reunir a vizinhança para fazer compras coletivas no atacadão e conseguir algum desconto. Até os centavos economizados utilizando sacolinhas ecológicas estão valendo à pena.
O prato saudável e colorido está cada vez mais longe da realidade do brasileiro. O tomate, por exemplo, ficou mais caro 48,65% entre janeiro e abril. Enquanto, o preço da “junk food” recuou ao longo dos últimos 22 anos, de acordo com uma pesquisa britânica. Pagar as prestações do “Minha casa, minha vida” ... É! Ficou complicado para quem sonhava viver com um mínimo de segurança.
A incerteza do amanhã preocupa os empregados e desespera quem procura uma vaga. As demissões em massa são verdade para empresas que tentam sobrevivem em meio a tantos números negativos. Simultaneamente, quem tem que colocar comida na mesa, mesmo com boa graduação, aceita qualquer cargo disponível.
Com todo esse arrocho, um passeio no shopping para compras descompromissadas virou imprudência. O novo comportamento pode ser positivo por um lado, por ajudar a combater a inflação, mas, em contrapartida, enlouquece as indústrias que não conseguem vender o que produzem. Assim, decidem dar férias coletivas e a história vai virando uma bola de neve.
Incrível pensar que chegamos a esse ponto nem por falta de planejamento orçamentário, mas pela roubalheira que virou a identidade do nosso país. Os escândalos da Petrobrás e tantos outros casos de corrupção foram parar na mídia internacional. Vergonha para quem canta como hino: “o teu futuro espelha essa grandeza”. A pátria amada já não é idolatrada. Vários dos nossos querem fugir para o exterior, sem a ciência que problemas (talvez em níveis menores) também existem por lá.
A esperança de dias melhores poderia existir. Poderia, se policiais federais não dessem carteiradas e se achassem acima do bem e do mal. Poderia, se as pessoas respeitassem os procedimentos e não insistissem em dar um “jeitinho” em tudo. Poderia, se cada um tomasse consciência de que uma gota d'água faz toda a diferença para quem tem sede.
Letycia Cardoso
Solução pra quem?
A redução da maioridade penal é um tema recorrente em rodas de conversa, mas neste momento não há como ficar em cima do muro. A sociedade divide-se em relação a como punir adolescentes infratores. Tramita na Câmara, uma Proposta de Ementa à Constituição (PEC) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O projeto original é de autoria do ex-deputado federal Benedito Domingos (PP-DF), foi proposto em 1993 e ficou parado por 21 anos. O tema está em discussão em uma comissão especial, composta em sua maioria pela “bancada da bala” - ex-militares e delegados de polícia que defendem o endurecimento de penas e a revogação do Estatuto do Desarmamento; em seguida será votado na Casa e, caso seja aprovado, seguirá para o Senado.
Uma pesquisa realizada pelo Datafolha, no início de abril, revelou que 87% dos brasileiros concorda com a PEC da maioridade penal, contrários à mudança são 11% e os demais são indiferentes. A consulta popular realizou 2.834 entrevistas em 171 municípios, nas quais 47% das pessoas tinham entre 16 e 34 anos de idade. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. Em 2006, o percentual era de 84% de pessoas a favor.
A advogada Ana Luíza Benatti faz parte da minoria e explica seu ponto de vista. “É uma questão de reorganização político-social. Não é com formas opressivas de punição, que joguem menores em um meio não eficaz à correção que o problema será resolvido.”. Ainda para Ana Luíza, o governo deveria investir em educação, na melhoria da qualidade de vida para obter a redução dos índices de crimes em geral. Já Ana Paula Souza, esposa de um Comandante do Exército, acredita que “se o adolescente com 16 anos, já tem condições de votar, podendo assim definir o futuro de um país, esse mesmo adolescente também pode responder criminalmente pelos seus atos”.
O educador social e ex-diretor do Departamento Geral de Ações da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro (Degase), Sidney Teles, contrapõe esse argumento, questionando por qual motivo o adolescente seria responsável pelos seus atos a partir dos 16 anos e, nessa mesma idade, não teria acesso a outros direitos como casar e dirigir, por exemplo. Além disso, Teles lembra que o voto aos 16 anos é facultativo, enquanto a redução da maioridade penal tornaria obrigatória a punição: “Eles vão transferir um problema da sociedade para o sistema prisional, que já está superlotado. E eles não vão construir novas unidades.”
Ainda segundo Teles, uma unidade socioeducativa não tem a estrutura necessária para transformar o futuro dos jovens lá inseridos. Em geral, a correção é feita pela repressão e não pelo ensinamento. Segundo o ex-diretor, atualmente, os funcionários do Degase usam uniformes, como militares: “Isso não vai trazer nenhum resultado positivo. É o período em que o adolescente deveria ter acesso a tudo que não teve, como cultura e educação, para que, quando adulto, possa fazer as próprias escolhas.”.
De acordo com os últimos dados divulgados pela Secretaria de Direitos Humanos, referentes ao Levantamento Anual da Coordenação-Geral do SINASE (SNPDCA/SDH/PR 2012), o crime mais cometido por jovens infratores é roubo (40,01%), seguido de tráfico (23,46%) e homicídio (8,81%). Ainda de acordo com dados de 2011, disponibilizados pelo Ministério da Justiça, menos de 1% dos crimes é cometido por menores.
É com base nesses números que estudantes do Rio de Janeiro e de Brasília foram às ruas expor sua não concordância com a redução da maioridade penal. As marchas nas capitais uniram jovens que consideram a mudança na legislação um atraso para a sociedade brasileira.
Nos Estados Unidos, a maioridade penal varia nos 50 estados, porque o país permite que cada um deles estabeleça sua própria legislação. Atualmente, apenas Nova York e Carolina do Norte consideram a idade de 16 anos e outros 11 estados adotam 17 anos como idade para um adolescente ser responsável pelos seus atos.
Os critérios para a transferência de um caso da Vara de Infância para uma Corte comum variam, mas têm em geral a mesma vertente: a gravidade do crime praticado, como assassinato, estupro e assalto. Segundo essa base para a decisão da condenação, o Canadá adota maioridade penal entre 12 e 14 anos; enquanto na Austrália, a idade é fixada em 10 anos. Na pesquisa do Datafolha, 75% dos entrevistados apontaram que homicídio seria uma causa para levar à cadeia comum o menor de idade. O segundo crime mencionado foi estupro, com 41%.
O Ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Pepe Vargas, se posicionou contra a redução em uma coletiva de imprensa em maio: “Não há nenhum dado concreto que mostre que a redução da maioridade penal resolve o problema de violência. Por outro lado, sabemos que nos Estados Unidos, onde houve endurecimento da pena o problema não foi resolvido.”
As Nações Unidas no Brasil também declararam a não concordância com a mudança na maioridade penal. Através de nota, afirmaram a preocupação em as infrações cometidas por adolescentes e jovens serem tratadas exclusivamente como uma questão de segurança pública. Para a ONU, esses crimes são um indicador de restrição de acesso a direitos fundamentais, a cidadania e a justiça, e, se a PEC 171/1993 for aprovada, o país poderá ter “graves consequências no presente e futuro”.
Os argumentos contra e a favor do tema são muitos para decidir o futuro dos quase 20 mil adolescentes que cumprem pena em regime fechado no Brasil.
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