quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sobre a arte de complicar

Em um shopping de Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ), uma jovem falava ao telefone com a tia.

_Tia, ele não sabe que eu vi isso no celular dele. Aí eu perguntei quem estava lá de mulher e ele disse que só a secretária. Aí eu falei “mas não tinha uma grávida” e ele disse que tinha, mas que grávida não contava.

O diálogo seguia. Eu, enquanto almoçava, não conseguia ouvir os conselhos da tia, apenas os relatos indignados da moça.

_ Nós fomos jantar e tudo ficou bem. Mas eu sei, tia, que se ele não fez alguma coisa, ele teve a intenção de fazer! Ele teve! Aí na volta, no carro, eu não aguentei. Tirei satisfação e ele não entendeu nada. Acabei chorando. Ele disse que não sabia dessa minha insegurança. Me odiei por ter chorado na frente dele, mas não consegui segurar.

A vontade de interferir e perguntar se ela queria conversar comigo, ali pessoalmente e liberar a coitada da tia, era grande, mas como as pessoas vivem cada dia mais em seus mundos, preferi não me intrometer para não ser mal interpretada. A esse ponto da conversa, já economizava os últimos grãos de arroz para escutar o desfecho. Pela minha cabeça, o roteiro estava construído: o noivo foi a uma festa da empresa e ela suspeitava de uma traição. Mas, para minha surpresa, ela esclareceu.

_ Tia, eu sei que a gente não tem nada. Mas eu estou gostando dele e não quero que ele fique com mais ninguém. Ele tem que me respeitar. Eu não quero e pronto!

Nesse momento, a moça da limpeza do shopping já havia recolhido minha bandeja e não tinha mais como enrolar. Peguei minha bolsa, abandonei a conversa e a moça com olhos lacrimejados. Saí pensando como as pessoas sempre arrumam um jeito de complicar as relações.

Presenciei esse fato justamente em uma semana em que lia um livro de Martha Medeiros, ou quem sabe apenas prestei atenção por estar mais sensível às emoções e as reflexões propostas por essa fantástica escritora. Parafraseando-a, afirmo: as pessoas se afogam num pires. Isso mesmo. A menina não tinha nenhum compromisso oficial e mesmo assim agia com uma cobrança que seria inaceitável mesmo que originária de uma esposa. Querer controlar e privar o outro e ainda fazer drama não é a melhor maneira de conquistar alguém. Não é mesmo? 

Entretanto, parece que muitas pessoas têm vocação para poeta. Não por escreverem coisas belas, mas por terem suas existências ligadas a pequenos sofrimentos, sem os quais viveriam sem rumo.

É preciso simplificar e tomar decisões que realmente solucionem os problemas. Ou ela deveria seguir em frente numa relax, deixando as coisas acontecerem naturalmente e explicando para o alvo de seus sentimentos tudo o que se passava pela sua cabeça (de forma racional e não doentia), ou então, se enxergasse que o rapaz não tinha os mesmos objetivos que ela, assumir que se equivocou e seguir em frente. 

Para fechar com chave de ouro não poderia deixar de citar Martha, em um trecho de sua crônica Amputações: “Cada um tem um cânion pelo qual se sente atraído. Não raro, é o mesmo cânion do qual é preciso escapar.”

Um comentário:

  1. Que lindo Lelê!! Tava com saudades de ler seus textos tão sensíveis!
    Concordo com vc, a vida é tão simples e a gente faz uma questão danada de complicar tudo né? Questionar, pensar no se, colocar problemas onde a solução é tão fácil... o ser humano que é complicado demais! rsrsrs
    Beijinhos / saudades!

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