quarta-feira, 22 de julho de 2015

Psiu, você anda seguro por aí?

Desde que eu me mudei para a “Cidade Maravilhosa”, há um ano e meio, muitas pessoas vieram me recomendar cuidado e elogiar minha coragem em vir, “sozinha e frágil”, para um lugar tão caótico e violento. Cansei de ouvir conselhos como “se alguém pisar no seu pé, peça desculpas” e indignações do tipo “como assim você volta do supermercado à pé às oito horas da noite?”. Sem contar as ordens de “não ande na rua falando ao celular” e “não ande nem com bijuterias”.


É isso mesmo, gente? Eu tenho que mudar meu jeito de viver, de vestir e ser prisioneira em prol da minha segurança, porque se eu agir normalmente algo terrível irá me acontecer? Há quem prefira mesmo se enjaular, já que não consegue colocar atrás das grades todos os bandidos da Terra. É o caso do comerciante baiano que só atende seus clientes através de uma grade, ou de um dono de mercearia que, depois de ter sido assaltado várias vezes, instalou mais de vinte câmeras no seu pequeno estabelecimento, além de gastar 40 mil reais com uma porta-giratória detectora de metais, como aquelas presentes na entrada de agências bancárias.

De certa forma eu entendo quem não acredita como eu me viro por aqui ou quem admira a minha tal “coragem”. No pensamento deles: uma menina, filha única, se mudar sozinha, para morar, a princípio, nos fundos da casa de desconhecidos, tendo que andar por ruas igualmente desconhecidas de uma metrópole é algo um tanto quanto absurdo. Mas não é. É só a gente desfazer o estereótipo que criamos na nossa mente.

A violência existe por aqui sim. Não nego. É preciso sim estar atenta e ter cuidado. Mas, amigos, ela está em toda parte. Você não viu nos noticiários que foram registrados 35 assassinatos em um único final de semana em Manaus? Que o interior de São Paulo está aterrorizado com ações violentas de quadrilhas? Que na Bahia já perderam as contas de quantos caixas eletrônicos foram explodidos só neste primeiro semestre?

É o mesmo caso da imagem que constroem das pessoas, sem nem antes analisar o caráter de cada uma. Eu confio muito mais no cara da favela que me socorreu quando meu carro quebrou, que no policial o qual me diz cantadas nojentas enquanto estou correndo. Ou no trabalhador que pega o trem lotado às 18h na central e enfrenta duas horas de volta para casa, que no PM que me nega ajuda quando vou avisar de um cara suspeito.

O jeito, meu caro, é viver sem medo para não virar refém das próprias preocupações. 
Letycia Cardoso