quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pai, afasta da imprensa esse cálice

O assunto principal da maioria dos sites de notícia brasileiros, nesta quinta-feira (13), foi a manifestação contra o aumento das tarifas de transporte em São Paulo e a ação das polícias. 

Durante os atos, jornalistas que faziam a cobertura foram presos, dentre eles, profissionais da UOL, Folha de São Paulo, Terra e Carta Capital. Motivo? Porque estavam fazendo o seu trabalho ao retratar a realidade.
Fotógrafo é detido pela polícia durante cobertura da manifestação contra aumento da tarifa de transporte urbano em São Paulo (SP). Foto: Alex Silva/Estadão
Nesse momento de censura, lembro de todo o caminho que a imprensa percorreu para garantir o seu direito de ser livre.
  • Em 1821, D. Pedro, príncipe regente, decreta o fim da censura prévia para toda a matéria escrita, tornando a nossa imprensa livre.
  • O Jornal do Brasil nasce com a República, independente de vínculo partidário, assumindo a posição de jornal livre. Após a morte de D. Pedro II, dois artigos são publicados incitando a volta da monarquia; a redação é atacada por invasores armados e o Ministro da Justiça declara que: “não poderia garantir a vida para os jornalistas que trabalham nos jornais monarquistas”.
  • Durante o Estado Novo, surge o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela censura e controle da imprensa, da literatura, do teatro, do cinema e de quaisquer manifestações culturais. Em 1953, é criada a Lei de Imprensa, que previa multas e prisão caso o jornalista ofendesse a moral pública e os bons costumes.
  • Em 1968, na Ditadura Militar, o AI-5 cerceia a liberdade dos meios de comunicação de massa, impondo censura prévia a todos eles.

Ainda podemos lembrar alguns casos específicos de censura na história:

  • Em 1859 o jornal Publicador paulistano teve sua sede arrombada e todos os seus documentos queimados, assim como em 1890, A Tribuna também foi invadida por publicar artigos contra o Marechal Deodoro da Fonseca e contra o exército.
  • “O Correio da Manhã”, que frequentemente denunciava os abusos da ditadura, foi perseguido: a sua sede foi atacada a bomba, invadida e interditada.
  • Vladimir Herzog, jornalista de 38 anos, que já havia trabalhado em diversas empresas, foi convocado a comparecer no DOI-CODI_ Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna_ para prestar esclarecimentos sobre sua suposta ligação com o Partido Comunista Brasileiro. No dia seguinte, foi encontrado morto com o cinto do uniforme de prisioneiro enforcando seu pescoço e amarrado na janela; os militares alegaram que ele havia se suicidado, porém a foto divulgada mostra o jornalista com os pés no chão, ou seja, como muitos militantes da época diziam: “ele foi suicidado pela ditadura”.
Em tempos de democracia, atitudes como as da Polícia de São Paulo são inconcebíveis. Os jornalistas sempre lutaram pelo direito à informação e à liberdade de expressão, porém as conquistas parecem estar sendo ignoradas. Uma jornalista da Folha de São Paulo, ainda durante a cobertura do ato contra aumento da passagem de transportes públicos,  recebeu um tiro de bala de borracha que atingiu seu olho.
Foto: Diego Zanchetta/Estadão
Até quando os “poderosos” ainda vão pensar que podem controlar o povo, escondendo informações, através do uso da força e da censura?

“Há um gosto que vem de longe na vida brasileira: o gosto de mandar os de baixo calarem a boca. A autoridade pátria se sente mais segura quando tem ao alcance da mão esse instrumento cortante e bem pesado, esse facão material e plúmbeo chamado censura.”
(Eugênio Bucci)


Observação: entre as coberturas das manifestações de São Paulo, podem-se perceber sutis palavras e expressões que marcam a opinião dos veículos quanto ao acontecimento. Compare: Veja, Carta Capital, Época, Estadão, Folha de São Paulo, Blog do Sakamoto.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tolerância: o elo entre religião e esporte

Não é de hoje que religião e esporte têm uma ligação. Na Grécia antiga, antes da criação das Olimpíadas, os gregos já realizavam competições como forma de homenagear deuses, principalmente Zeus. Entretanto, atualmente, a mídia tornou bem mais perceptível essa relação. 

Atletas ajoelham-se para agradecer a vitória; os perdedores crêem que a mão divina assim o fez porque reserva um futuro melhor; antes dos jogos, os vestiários são cenários de rezas coletivas repletas de pedidos para que tudo dê certo, leia-se, para que Deus os favoreça. Essas são apenas algumas das manifestações de religiosidade no esporte, mas eis a pergunta: até quando esse vínculo é saudável e positivo?


A religião pode sim ajudar o esporte a partir do momento em que faz o atleta acreditar que a causa primária de todas as coisas está ao lado deles e, portanto, que eles têm vantagem. Dessa forma, mais confiantes, apresentam um melhor desempenho justificado pela fé. Todavia, existem casos em que os benefícios são questionáveis, por exemplo: um time mulçumano que conta com jogadores evangélicos e católicos, mas obriga os contratados a seguirem as regras da religião, como não comer carne de porco, nem consumir bebida alcoólica. Outro exemplo é o de uma igreja evangélica em Nova Iguaçu (RJ) que oferece aulas gratuitas de Jiu-Jítsu e, como moeda de troca, obriga que os interessados na arte marcial frequentem os cultos.

A justificativa de ambos é levar a disciplina da religião para o esporte, mas tudo que é forçoso, não é feito de bom grado, sendo assim, não tem um resultado positivo. Por trás da boa vontade dos templos religiosos, existe o interesse de prospectar fiéis para aquela convicção, agregando seguidores. Os mulçumanos alegam a criação do time Islam devido ao preconceito existente contra a sua crença, mas exigir que o outro siga a sua fé, também é uma forma de preconceito. 

A religião deve ser escolhida e praticada livremente. Ela é positiva no campo esportivo enquanto forma de incentivo e não como objeto segregador. Com função semelhante, os esportes servem para fomentar a interação social e promover o aprendizado sobre o convívio coletivo, sendo assim, não existe motivo para tanto conflito. Não existe problema na união desses fatores que mexem tanto com o coração humano quando essa relação é harmônica. É preciso que haja respeito à crença alheia, humildade para saber que não existe uma religião certa e outra errada, além de tolerância, atitude essencial para quem vive em sociedade.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O sorriso de Ouro Preto

O bom humor diário prevalece, mesmo após longos 45 anos de profissão. Pedro Custódio tem por ofício enriquecer viajantes com a cultura e a história de Ouro Preto (MG), contando detalhes e curiosidades das igrejas e museus, além de responder aos questionamentos dos turistas, envolvendo, dessa forma, adultos, crianças e idosos.

O senhor de 61 anos destaca-se dos guias mais jovens pela atenção ofertada a cada um que lhe dirige qualquer pergunta e pelo brilho nos olhos ao responder os questionamentos. O amor pela profissão foi herdado do pai, também guia, com quem aprendeu quase tudo o que sabe. Nenhum curso técnico ou universitário o capacitou, apenas um curso de como conduzir pessoas, do qual participou com 12 anos; a convivência com os avós repletos de “causos”; e a vida, inteiramente vivida naquela cidade.


Mas não seria entediante apresentar todos os dias, e às vezes mais de uma vez por dia, os mesmos monumentos e falar sobre os mesmos assuntos? Custódio rebate justificando que o prazer de sua profissão é sempre conhecer pessoas novas, de diferentes lugares e não se apegar a uma rotina específica. Assim, o guia conseguiu sustentar sua casa, como autônomo, fazendo o seu marketing pessoal e sabendo ser tolerante: “O tour de quatro horas é 80 reais, mas se o turista for mais pobrinho, faço por 50 ou 40 mesmo”.


Ao final da conversa, o senhor Pedro me oferece seu cartão, pedindo para que eu o indicasse caso conhecesse alguém que fosse visitar Ouro Preto e complementa dizendo que sempre está na Praça Tiradentes. Se você passar por lá, é fácil reconhecê-lo: basta procurar pela alma mais sorridente e simpática da antiga Vila Rica.